A moradia e sua evolução com o tempo

6 agosto, 2015 / By

¨No futuro, os habitantes desta casa certamente serão menos e é provável que a quantidade atual de dormitórios existentes seja desnecessária. ¨ Arq. C. Fraga

6 agosto, 2015 / By

A arquitetura e o tempo

 

Dentro do âmbito da arquitetura, a casa em nosso país sempre despertou interessantes debates teóricos vinculados não somente com a profissão senão com aspectos sociais, políticos e econômicos relacionados como os governos de turno.

Seria interessante recordar como a universidade viveu no primeiro período democrático começado em 1983 quando as novas cadeiras de Projeto Arquitetônico tomaram como paradigma a moradia social, detonando a discussão primeiro arquitetônica, mas também política e social do momento: a autoconstrução e cooperativismo eram as meios para o desenvolvimento.

Vivemos também outro período, onde a casa era pensada a partir dos grandes grupos econômicos, os que junto com o estado, desenvolviam setores da cidade, dirigindo a discussão teórica ao tema de como os novos desenvolvimentos não afetavam a qualidade urbana das grandes cidades. Seria inútil mencionar o caso da Europa onde durante a post guerra a necessidade de moradia tratava de ser resolvida com novos sistemas construtivos e posturas teóricas que tratavam de responder à nova organização social. A Arquitetura Moderna cumpriu ali um papel fundamental podendo-se comprovar seus efeitos e defeitos ainda nos dias de hoje.

Esta síntese tenta demonstrar a importância da moradia para habitantes de países como o nosso onde as vicissitudes políticas, sociais e econômicas são constantes.

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Projetar olhando o relógio

 

Tendo como referência o nosso contexto, a casa gera um efeito de um antes e um depois nos seus habitantes em relação a seus objetivos de bem estar e crescimento projetados no tempo.

Dada esta realidade, no momento de projetar, o arquiteto deveria considerar como condição fundamental a variável do tempo, avaliando as necessidades originais apresentadas por seus habitantes ou núcleo familiar que a habitará em diferentes módulos e ciclos temporais.

Não é sempre que se tem em consideração essa condição temporal. Geralmente os aspecto funcionais, estéticos, espaciais e inclusive os sistemas construtivos vinculados com a materialização são escolhidos no lugar de outras condições como as econômicas, os prazos de entrega, as urgências e necessidades específicas do momento.

As diferentes etapas na vida de uma família somadas às diferentes composições das mesmas e as condições de desenvolvimento da vida diária que a atualidade propõe, faz com que a conformação dos objetivos funcionais desde o começo, devam ser avaliadas considerando-se sua flexibilidade para a transformação.

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A casa deveria ser efetiva para os diferentes ciclos da vida de seus usuários, deveríamos pensá-las de forma tal que com simples mudanças e investimento econômico de baixo custo seus espaços e áreas funcionais permitam adaptar-se à diferente realidade que seus usuários exigem através do tempo.

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Um velho professor universitário de Projeto dizia a seus alunos quando corrigia projetos de casas: ¨Você está projetando uma casa para pessoas jovens. Como viveria na mesma casa uma pessoa mais velha?¨. Muitas vezes esta pergunta não tinha resposta ou talvez sim, mudar-se a outra casa que resolvesse o problema involucrando nesta decisão a separação de uma grande quantidade de afetos.

Como exemplo do que se expos aqui, deveríamos analisar as obras dos grandes maestros da arquitetura e como seus edifícios sobrevivem dignamente através do tempo as mudanças de destino em relação aos novos programas funcionais que o passo do tempo lhes propõe, incorporando a infraestrutura tecnológica, reativando seus espaços vitais e adaptando-se ao meio urbano.

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Da teoria à prática

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Esta introdução teórica pode-se exemplificar na casa realizada por nosso estúdio no Country São Carlos localizado no município de Malvinas Argentinas, Estado de Buenos Aires.

As necessidades funcionais de partida apresentavam um grande desafio dado que devíamos projetar uma casa de uso permanente para um matrimônio cuja estrutura familiar contava com 6 filhos de idades dispares entre 3 e 12 anos e com a condição econômica de não superar os 200 m2 cobertos.

Diante destas condições se optou por uma casa desenvolvida no nível térreo, o que permitiu um vínculofluido entre as diferentes áreas funcionais internas entre si e com o exterior. Evitamos parti-la em dois níveis dado que as áreas circulatórias se duplicariam impedindo usar de forma ótima os reduzidos metros quadrados a desenvolver em relação como a quantidade de usuários.

A partir do que analisamos, propusemos um esquema organizado em blocos funcionais cuja disposição permitisse articular os diferentes espaços de uso:

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061- Bloco íntimo: resolvido em uma tira integrada por quatro dormitórios e 3 banheiros completos. Neste bloco se sintetizou fundamentalmente todas as áreas circulatórias de vínculo entre as partes, incorporando-se equilibradamente à distribuição geral as áreas de guardado e técnicas.

2- Bloco de serviço: integrado pela cozinha, área e dormitório de serviço, recebeu o mesmo tratamento que o do bloco íntimo.

3- Bloco de serviço e técnico: resolvido com uma barra central que divide a área íntima da social à maneira de articuladora. Contém todas as áreas de apoio e técnicas necessárias para abastecer os diferentes setores funcionais da casa.

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4- Bloco de sala de estar e de jantar: resolvido com um grande telhado flutuando entre os blocos 2 e 3 com amplas superfícies de vidro que vinculam este setor com o exterior.Esta grande estrutura de telhado incorpora a área semicoberta, projetado com uma altura de 4m para permitir captar as visuais completas da vegetação dos arredores.

 

No futuro a quantidade de habitantes desta casa certamente diminuirá sendo provável que a quantidade atual de dormitórios seja desnecessária.

05O projeto contempla a possibilidade de vincular a área de sala de estar e jantar como os dois dormitórios centrais do volume de dormitórios com pequenas mudanças de paredes de gesso gerando-se no futuro um terceiro espaço de estar para receber a família aumentada composta por filhos, noras, genros e netos e mantendo os dormitórios de hóspedes e o do atual casal, nos extremos desse bloco.

 

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Para cumprir com tal objetivo utilizamos uma plateia de fundação que permite adaptar qualquer tipo de transformação estrutural e um revestimento de tipo único e continuo incluindo nesta decisão todas as áreas cobertas e semicobertas, banheiros, cozinha e serviços.

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02Este exemplo demonstra o que se expressou teoricamente: a casa deve ser projetada com a condição do tempo, deve permitir sua ampliação e adaptação de acordo com as necessidades do grupo familiar. Estas ideias devem ser dominadas desde o início do projeto para ser expressadas conceitualmente na proposta. As modificações necessárias não deveriam permitir que se perca o espírito do projeto aceitando um crescimento harmônico em todas as variáveis do projeto desde o aspecto funcional até o formal e espacial.

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A incorporação do módulo temporal dentro da concepção do projeto é necessária não só nos aspectos que se vinculam com os estéticos-funcionais mas com os técnicos-construtivos.KWA

 

Fonte: Kraftwelt®